RÉPONSE DE FEMMES, um filme de Agnès Varda

RÉPONSE DE FEMMES, um filme de Agnès Varda

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Precisamos falar das mulheres no cinema e quebrar com a presença hegemônica masculina nas produções audiovisuais. Parece clichê falar da não representatividade feminina nas produções audiovisuais ainda hoje, principalmente depois de um certo avanço do movimento feminista no mundo ocidental globalizado, mas se cogitamos analisar os dados veremos que as mulheres ainda são minoria dentro da indústria cinematográfica.

De início, algumas perguntas me perpassam quando penso no tema. Que lugar ocupamos? O que está sendo contado sobre as nossas vidas, nossos interesses? Qual é o imaginário social em voga no momento a nosso respeito? Mesmo quando vou buscar referências para minha pesquisa, a maioria das quais encontro ainda vêm dos autores homens brancos europeus etc. Através deles são transmitidas as imagens e os discursos de uma suposta mulher, uma mulher que não é contada pela perspectiva feminina e sim pela masculina. Assim, constatamos que o homem está contando e representando nossa história desde sempre, colocando seu olhar sobre algo que está em pé de alteridade para ele, enquanto às mulheres fica reservado outro lugar, o do apagamento das subjetividades individuais femininas.

Vou falar sobre o curta-metragem de Agnès Varda, cineasta e fotógrafa nascida na Bélgica, radicada na França. Um curta-manifesto que em menos de 8 minutos consegue ser tão assertivo e perspicaz na escolha das palavras, tais como se fossem ditas em um panfleto. Produção digna de uma nouvelle vague preocupada em retratar os problemas cotidianos sociais corriqueiros. 

No filme Réponse de femmes: Notre corps, notre sexe (1975) da diretora, assistimos um grupo de mulheres, bonitas ou não, jovens ou não, dotadas de instinto materno ou não, relatando suas dificuldades em ser mulher. Nele, não encontramos corpos femininos sendo sexualizados ou sendo vendidos como produto diante de uma câmera, pelo contrário, há uma significativa mensagem sobre o lugar que o gênero feminino ocupa na sociedade. Assim, gravidez, maternidade, casamento, padrões de beleza e “feminilidade” são colocados sob suspeita, justamente através das diferentes posições de cada mulher em frente à câmera. A diretora não usa da sua produção audiovisual apenas como uma moeda de troca, mas nos transmite uma significativa mensagem de forma bastante didática e inteligível.

Fazendo coro à passagem do artigo A mulher e a câmera que diz “um filme nunca é apenas um filme: é um agente cognitivo e sensível, que pode trabalhar no sentido de reforçar os sistemas de significação vigentes ou, contrariamente, inventar outros sentidos, outros mundos – entre um pólo e outro, todas as nuances são possíveis”, o filme de Agnès faz fluir outra atmosfera distinta dos discursos naturalizados pela cultura patriarcal.

O que eu tô propondo é um outro olhar.

Referência

MAIA, Carla, MESQUITA, Cláudia. A mulher e a câmera. FORUMDOC.BH.2012. 16º festival do filme documentário e etnográfico – fórum de antropologia e cinema.

Filme com legenda em português no Vimeo:

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

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Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Oprah entrevistando MJ.

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen por Sergio Maciel

Fonte: Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

Sergio Maciel – Recentemente você escreveu que “a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam”. Essa é sua definição pessoal de poesia? Mesmo com aquilo que diz Hilda Hilst sobre o escritor expressar sua verticalidade do melhor modo possível dentro da própria obra, não posso me furtar a pedir que você fale mais sobre esses versos & sobre sua visão a respeito da (o modo como você encara e lida com) poesia.

JCH – Rapaz! Que pergunta difícil de responder. Tem sim e tem não. Esta não é minha (única) definição pessoal de poesia, porque a minha definição de poesia é como a própria: metamorfose. Mas, sim, vejo a poesia como uma espécie de agência de ligações entre linguagens e mundos diversos, sempre a afirmar a própria solidão intrínseca. É como se a gente tivesse, num mundo particular, um monte de acúmulos, repertórios, buracos, com os quais o mundo de um poema estabelece conexões.

O verso que você cita do meu poema é uma releitura, uma realocação de um sentimento do mundo drummondiano: “Na solidão de indivíduo / desaprendi a linguagem / com que homens se comunicam”. Penso nestes versos porque o Drummond entendeu mais do que ninguém a linguagem com que os humanos se comunicam, a ponto de a ter desaprendido. Acho que esta gagueira instrumentalizada, isto também é o poema.

Quando escrevi esse verso que você citou eu estava com o Carlos na cabeça (estou quase o tempo todo com o Carlos no corpo), era alta madrugada e depois de anos eu me sentia muito sozinha (meu marido estava num retiro de meditação) e como ando pesquisando poemas que falem de amor, de afeto e de desejo pro novo livro que estou escrevendo, fui ler Ana Cristina Cesar, a quem eu só volto quando estou em mergulhos radicais, você sabe, paixão antiga sempre mexe com a gente.

E lendo o “A teus pés” naquela madrugada eu morria de rir de quanto a solidão é uma ilha de ilusão, sobretudo quando a gente a povoa com poemas, porque eles encenam tudo e mais um pouco do que podemos sentir em comum, eles encenam até o que a gente não sabia que a gente sentia, mas sentia. Aquele lance: o poema é o oráculo. E esta sensação de estar acompanhada e sozinha, me trouxe outras solidões do passado, lembrei das inúmeras noites de 15, 10 anos atrás, noites que eu atravessava lendo poesia e convivendo com a solidão acompanhada.

Agora a definição que você diz da Hilda eu não conheço! Podia googlar e me fazer de sabida, mas preferi me manter no mistério. Mas, poxa, a Hilda, aquele vulcão… eu pensava que ela só fazia poemas na horizontal!… Brincadeiras à parte, nem preciso entender pra dizer que concordo, sinto que estarei sempre de acordo com tudo que Hilda tiver escrito, falado, gritado. E olha que eu discordo até do Carlos.

Sergio Maciel – A definição da Hilda que cito está no livro Fico besta quando me entendem, que é uma série de entrevistas concedidas pela autora, organizadas por Cristiano Diniz e publicadas pela Biblioteca Azul. Mas ainda usando as coisas que você disse contra você (risos), recentemente, numa entrevista à Revista Continente, você disse que a produção do seu último livro, Seiva veneno ou fruto, se deu, em grande parte, graças ao seu retorno de Saturno, que foi quando você passou por um importante processo de abertura ao espiritual. Todavia você também diz que esse livro alinha e resolve coisas que você cultivava desde os 14 anos. É curioso ver como um processo iniciado e cerrado há pouco tempo suscita questões tão antigas, lá da sua adolescência. Aquilo que quero saber, no entanto, é o que todo esse processo espiritual, metafísico, astral representa pra você neste momento, dentro da sua obra, e de que modo isso afeta sua percepção da própria poesia, do seu fazer poético, do seu contato com a arte em geral. De que modo essas experiências todas ajudam a construir aquilo que você nomeou como uma “semântica integrativa”?

JCH – Lá vou eu falar de Drummond de novo: quando eu falo em “semântica integrativa” tem a ver com uma forma de montar os poemas no objeto final livro que aprendo a fazer com ele. Sabe quando você lê, por exemplo, Sentimento do Mundo e sai de lá de dentro com uma sensação que a palavra “noite” foi dita tantas vezes de tantos modos e com tantos significados e sonoridades combinadas que a noite se alargou até a linha do horizonte? De tanta coisa que “noite” significa. É um modo de ocupar as palavras e eu às vezes acho que o meu ofício é só esse: ocupar palavras.

O Herberto Helder diz algo parecido de forma invertida (e que cito de memória): “digo uma palavra mil vezes, ela já não significa”. Este meio-fio, este lugar em que a palavra é utilizada de modo a ocupar & ao mesmo tempo perder todo o significado, eu acho que esta é a visão de fronteira que me interessa e mora no poema. Entendo que o fio da linguagem que mora no poema é como um cavalo que cavalgasse uma fronteira limite, entre a ocupação material & o vazio e que, no fundo, é a linha limítrofe entre a vida & a morte também. Tanto Herberto como Drummond mostram isso o tempo todo & curiosamente ambos tinham Saturno em Capricórnio, o eixo no signo do tempo.

Formalmente eu gosto de ocupar o espaço de um livro com repetições semânticas que criem um fortalecimento das ligações entre os poemas, que elaborem uma sinergia dentro do livro e que, assim, pode transformá-lo numa espécie de objeto de combate, feito uma pedra ou um besouro, um objeto que em mãos alheias vai se entranhar com alguma implacabilidade. Tentei fazer isso em todos os meus livros de poemas até agora, mas só consegui no Seiva veneno ou fruto. Nos outros dois anteriores as linhas de fuga escaparam e como eu sou como sou (indisciplinada, exagerada e bagunceira) deixei estar. Afinal também sei apreciar o caos, a liberdade do caos. Mas no Seiva veneno ou fruto aconteceu uma espécie de ideal, de argila que eu (meio sem saber) tentava moldar desde a adolescência. E isto “moldar” tem tudo a ver com Saturno, que é o eixo.

Meu eixo de Saturno, o Saturno que tenho no meu mapa fala de muitas coisas, como buscar a transcendência através da descoberta do prazer, ou de como fazer da ancestralidade um eixo emocional de renovação lúcida (é o mesmo Saturno do Guilherme Gontijo Flores, por exemplo & aliás, quando li sua entrevista com ele fiquei vendo muito esse nosso Saturno em comum). Saturno em Escorpião tem que criar uma espécie de compromisso com isso, ou se não é soterrado de tanta presença de antepassados.

Em resumo: tudo isto que escrevi acima é uma tarefa espiritual. Durante muitos anos eu achei que vida “religiosa” e vida “espiritual” eram sinônimos, mas isso era um modo equivocado e tacanho de entender as coisas, inclusive as culturas rituais dos povos. Estou com o Álvaro de Campos quando ele diz que as religiões não ensinam mais do que a confeitaria. Mas o espírito é outra coisa, que respira. E atualmente é a palavra que mais me interessa entender, não tenho a menor ideia do que “espírito” significa e, no entanto, vou dizer “espírito” mil vezes e já não significará nada, podendo enfim esvaziada, ser uma palavra reutilizada da forma que convier, vivificada.

SM – Em apenas duas perguntas, ficou absolutamente claro que Drummond exerce uma senhora duma influência sobre você – assim como sobre mim – além da Hilda, que você também mencionou. Como foi sua formação literária? Quais poetas e processos te conduziram a ser a Júlia escrevendo hoje?

JCH – Pergunta complicada de responder, acho difícil dosar petulância e vaidade e não soar ingênua ou arrogante ao dizer que “Drummond me influencia”. Talvez eu prefira a antropofagia mesmo: comi e como Drummond, comerei do seu pasto o resto dos meus dias e espero fazê-lo a cada dia de modo mais erótico. O quanto essa alimentação me nutre de fato dando frutos presentes nos meus poemas ou não, eu não sei. No mesmo sentido eu mencionaria como fundamentais pra minha digestão da vida: Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Herberto Helder, Raduan Nassar, Leonardo Fróes, Clarice Lispector, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario Cesariny, Ruy Belo… e teriam outros, dezenas. Isto pra ficar só nesta língua imensa portuguesa. E, no fundo, são autores que influenciam muita gente, toda gente talvez.

Eu devo a escrita ao meu pai, é algo que herdei dele. Ele me ensinou não exatamente a escrever, mas a perceber as forças que existem no texto, a ter prazer por escrever, possuir toda legitimidade que eu quiser e me permitir imediatamente tudo que me der prazer ao fazê-lo. Acho que essa audácia foi o mais fundamental de tudo que ele me deu. Comecei a escrever por prazer com 9 anos de idade, primeiro escrevia uns contos que misturavam histórias que eu tinha visto na televisão; depois, com 11 anos, quando soube na escola que poesia não precisava ter rima, comecei a escrever poemas. Na adolescência escrevi uns 400 poemas que eu guardava com muito esmero numa pasta, compilando uma espécie de obra completa, até que um dia precisei da pasta pra guardar outra coisa, fui numa praça perto de casa e com um isqueiro queimei todas aquelas folhas de papel.

Ao mesmo tempo, hoje em dia eu sinto que aprendi a escrever na Universidade de São Paulo e faz tempo que quero dizer isso publicamente! Risos e mais risos. Hoje percebo que tratei meus trabalhos de estudante de Letras como exercícios ficcionais, em que era preciso construir argumentação e teia, tecido textual, eu aprendi (com Pound) como todos aprendem: fazendo, pelo exercício, pelo treino. Aprendi na Letras a exercitar a concatenação, a sensibilidade dos argumentos. Como é evidente não acho que um poeta precise estudar Letras, mas a necessidade de ser clara, de ser crítica e precisa me fizeram primeiro um mal danado: fiquei uns três anos sem escrever nada por prazer. Mas aí perdi um grande amor sem nem ter tentado de fato tê-lo e me senti tão estúpida que já não tinha nada a perder: comecei a me perder escrevendo. Na época, voltar a escrever por prazer foi uma libertação, significou também uma implosão daquilo que a Universidade tinha me colocado como paradigmas, eu estava de saco cheio. Mas hoje vejo de um modo um pouco diferente: eu incluí e incluo aqueles paradigmas críticos como ferozes participantes da sinergia textual. Mas misturei mais coisas, claro, que a USP, no geral, é um lugar muito careta.

SM – Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

JCH – Eu acho que esta pergunta é a mais fundamental que se pode fazer a um poeta hoje, ontem e sempre. Não acredito em poeta que não se veja como um missionário de alguma espécie mítica, de alguma técnica formal, de alguma audácia fundamental. Mas a minha resposta é um tanto quanto vaga: depende. Eu, hoje em dia, estou batalhando por uma voz que fale de algum lugar em comum, mas nunca que ela fale por este lugar em comum, não quero falar por ninguém, mas quero me tornar ninguém. Por isso tenho falado de morte, tenho falado de amor, tenho falado das plantas. São, digamos, os meus sinais fundamentais neste momento. Mas eu não sou em nada gregária e as deusas me livrem de um dia o ser. Acho que cada poeta vai ter seu sinal de emissão, sua sina de linguagem de determinadas tribos, seus códigos a inventar. Acredito, sobretudo nos povos que possam vir a morar na minha fala e trabalho todos os dias para veiculá-los. É tudo muito vago? Mas eu também nunca fui muito boa com “tarefas”, sou uma pessoa do êxtase, escrevo para senti-lo e causá-lo.

Entrevista publicada no dia 06/03/2017.

Somente um novo universalismo pode nos salvar da nova ordem mundial

 

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Por Slavoj Žižek, via ABC, traduzido por Aukai Leisner

A GLOBALIZAÇÃO CAPITALISTA E OS NOVOS COMUNS

O capitalismo global atual não pode mais fornecer uma visão positiva de humanidade emancipada, mesmo como um sonho ideológico. O universalismo liberal-democrata fukuyamista falhou por causa de suas próprias limitações e inconsistências imanentes, e o populismo é o sintoma dessa falha – sua doença de Huntington. Mas a solução não é um nacionalismo populista, à direita ou à esquerda. A solução é um novo universalismo – um universalismo exigido pelos problemas que a humanidade enfrenta hoje em dia, de ameaças ecológicas a crises de refugiados.

Fonte: Somente um novo universalismo pode nos salvar da nova ordem mundial

O mesmo Quico das minhas histórias não-inventadas.

Ju, queria conversar conversar contigo. Preciso de uma ajuda. Eu tenho um amigo usuário da saúde mental, é meu vizinho, mora aqui do lado da minha casa. Ele precisa de ajuda! Tô achando que ele vai acabar morrendo ou virando mendigo que é o que acaba acontecendo com estes indivíduos. Ele é da minha idade, cresceu comigo aqui na rua, sei do irmão gêmeo dele que tá preso, sei que os dois foram abandonados pela mãe desde cedo e ficaram sozinhos pro mundo criar depois que a avó morreu etc., por isso queria saber se tem como fazer alguma coisa pra ajudá-lo nesta situação.

Ele tem esquizofrenia (na verdade não sei qual é o diagnóstico) e por isso não consegue emprego, é negro, outro fator determinante, fuma maconha, provavelmente crack também e quando arruma algum dinheiro vai comprar drogas. As pessoas até ajudavam ele, davam comida, às vezes uns bicos pra capinar o quintal, mas parece que agora a situação ficou mais complicada. Ultimamente ele tem entrado na casa dos moradores daqui da comunidade pra roubar comida, às vezes dinheiro quando acha. Da última vez, antes do carnaval, ele assaltou a casa de um senhor aí os moleques da área (el justiceiros) foram atrás dele com pedaços de madeira pra bater nele. Ele conseguiu correr, mas a cabeça dele foi atingida por uma pedra e ficou sangrando. Minha mãe viu essa cena. Eles disseram que foram os bandidos que mandaram bater nele. Depois disso, ele foi pra Santa Isabel ficar com uma tia que mora lá, porque se ficar aqui os bandidos “podem matar ele”. No entanto, na última terça-feira de carnaval ele voltou pra cá. Ele veio com o primo de ônibus, mas não teve dinheiro pra voltar e acabou ficando. Uma vizinha arrumou dinheiro de passagem e meu pai levou ele no ponto quando escureceu pros moleques da boca não vê-lo passando de moto.

Ontem, sábado, o tio que mora no mesmo quintal chegou em casa e ele estava lá dentro. Ele quebrou o vidro da janela do banheiro e conseguiu entrar. “Comeu todas as comidas da geladeira e sumiu com as compras do meu armário” foi o que eu escutei o tio dele gritando na hora da briga. Ele já havia roubado este tio algumas vezes antes. Nas primeiras vezes que isso aconteceu o tio dele tacou fogo em todos os objetos que ele tinha em casa, como televisão, colchão e mais algumas coisas… desta vez, o tio colocou o barraco dele abaixo junto com mais dois moleques da área (el justiceiros again). O que já não era quase nada agora mesmo que não é.

Eu não sei por onde ele anda agora, provavelmente na rua perambulando, por aqui perto mesmo. A gente tava dormindo com as portas abertas aqui em casa por causa do calor, depois disso meu pai ficou com medo. De qualquer forma eu não queria criminalizá-lo, queria arrumar alguma forma de ajudar. Não é possível que o Estado já não possa fazer mais nada a essa altura do campeonato. Tempos de horror! Vidas negras primeiro!

O nome dele é Alex Sandro.

Mar 06, 2017.

Quebraram todos os VLTs do centro do Rio de Janeiro.
Mas o que é essa obra faraônica, ao mesmo tempo catastrófica, que construíram no centro da cidade para transportar passageiro, em sua maioria turistas? Um “trem” no qual o trajeto passa pela rodoviária Novo Rio, aeroporto Santos Dumont etc. é pra transportar trabalhador mesmo ou pra maquiar a cidade com obras grandiosas e de alto custo (um adjetivo relacionado a algo muito grandioso porém sem valor de uso) pra mostrar um cidade maquiada para os que estão vindo de fora e achar que o Rio é uma cidade bem desenvolvida e civilizada
A cidade foi toda transformada desde 2013 até agora. Hoje, ficamos encurralados pela PM em todas as ruas que tentamos sair, porque os canalhas  estavam protegendo a porra do ponto do VLT (que deve ser milhões de reais lavados) e atirando bombas de efeito moral e bala de borracha pra cima da gente.
O que é o valor de um ponto ou o vidro de um banco pra vida de um trabalhador assalariado sem salário, sem ter o que comer, vestir, assistir no final do mês porque o Estado não paga, só tira. As Reformas trabalhistas acabaram com os últimos direitos que ainda tínhamos enquanto indivíduos passíveis de dor e sofrimento, agora trabalhe trabalhe trabalhe escravo dê a vida para o seu chefe ou definhe junto a sua insignificância moral.

No dia 28 de abril foi greve geral!

(FEV./MARÇO DE 1921) A REVOLTA DOS MARINHEIROS DE KRONSTADT CONTRA O TERROR BOLCHEVIQUE

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Kronstadt é uma fortaleza naval situada numa ilha que serve tradicionalmente de base à frota naval da Rússia para proteger a cidade de São Petersburgo (que será batizada Petrogrado durante a primeira guerra mundial, depois Leninegrado, depois de novo São Petersburgo) e que fica a 35 milhas da cidade

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“Todo o poder aos sovietes e não aos partidos”

A revolta de Kronstadt começa nos primeiros dias de Março de 1921.

Os marinheiros de Kronstadt foram a vanguarda das ações revolucionárias de 1905 e de 1917. Em 1917 Trotsky designava-os como “o valor e a glória da Rússia revolucionária”. Os habitantes de Kronstadt foram, desde muito cedo, apoiantes e executantes do “todo o poder aos sovietes”, formando uma comuna livre em 1917, relativamente independente das autoridades. Praticando a democracia direta a partir de assembleia ou comités de base. No centro da fortaleza, um espaço público enorme servia de fórum popular podendo acolher mais de 30 000 pessoas. Os habitantes de Kronstadt estavam habituados a organizarem-se eles próprios.

A guerra civil russa acabou em Novembro de 1920, no este da Rússia, com a derrota do general Wrangel na Crimeia. Através de toda a Rússia  explodiam protestos populares no campo e nas cidades. Os levantamentos rurais tinham como alvo a policia do partido comunista que requisitava cereais. Nos setores urbanos, surgiu também uma vaga de greves e em Fevereiro explode uma greve geral em Petrogrado.

A 26 de Fevereiro, em resposta a estes acontecimentos em Petrogrado, a tripulação dos navios “Petropavlovsk” e “Sevastopol” têm uma reunião de urgência e põem-se de acordo para enviarem uma delegação à cidade para se informarem e fazerem um relatório sobre o movimento grevista. No regresso, dois dias depois (a 28 de Fevereiro), informam os seus camaradas marinheiros das greves (com as quais têm total simpatia) e a repressão que o governo dirige contra elas. Os participantes nesta reunião realizada no navio “Petropavlovsk” aprovam então uma resolução com 15 reivindicações que incluem eleições livres para os Sovietes, liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de organização para os operários, os camponeses, os anarquistas e os socialistas de esquerda.

“Considerando que os sovietes atuais não exprimem a vontade dos operários e camponeses,

1º) proceder imediatamente à reeleição dos sovietes pelo voto secreto. A campanha eleitoral entre operários e camponeses deverá desenrolar-se com plena liberdade de expressão e acção;

2º) Estabelecer a liberdade de expressão e de imprensa para todos os operários e camponeses, para anarquistas e socialistas de esquerda (1);

3º) Dar liberdade de reunião aos sindicatos e às organizações camponesas;

4º) Convocar à margem dos partidos políticos uma Conferência dos operários, soldados vermelhos e marinheiros de Petrogrado, de Kronstadt e da província de Petrogrado para 10 de Março de 1921, o mais tardar;

5º) Libertar todos os prisioneiros políticos socialistas e também todos os operários, camponeses, soldados vermelhos e marinheiros presos em consequência dos movimentos operários e camponeses;

6º) Eleger uma comissão com o fim de examinar o caso daqueles que se encontram nas prisões e campos de concentração;

7º) Abolir os “comissários políticos” (2), pois nenhum partido político deve ter privilégios para a propaganda das suas ideias, nem receber do Estado meios financeiros para esse fim. No seu lugar devem-se instituir comissões de educação e cultura, eleitas em cada localidade e financiadas pelo governo;

8º) Abolir imediatamente todos os postos de controlo («zagraditelnyé otriady») (3)

9º) Uniformizar as rações para todos os trabalhadores, excepto para aqueles que exercem profissões perigosas para a saúde;

10º) Abolir os destacamentos comunistas de choque em todas as unidades do exército, assim como a guarda comunista nas fábricas e oficinas. Em caso de necessidade, esses corpos de guarda podem ser designados pelo exército para as companhias e nas oficinas e fábricas pelos próprios operários;

11º) Dar aos camponeses o direito de trabalharem as suas terras da maneira que desejarem, bem como o direito de possuírem gado, na condição de que eles mesmos executem as suas tarefas, isto é, sem recorrerem ao trabalho assalariado;

12º) Designar uma comissão móvel de controlo;

13º) Autorizar o livre exercício do artesanato, sem emprego de trabalho assalariado;

14º) Pedimos a todas as unidades do exército e também aos camaradas kursanty (4) que se juntem à nossa resolução;

15º) Exigimos que todas as nossas resoluções sejam largamente publicitadas pela imprensa.

*

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Fotografia de Stepan M. Petrichenko alguns meses depois da sua participação na revolta de Kronstadt. Presidente do Comité Revolucionário Provisório, membro da tripulação do Petropavlovsk e um dos líderes da insurreição de Kronstadt. Morreu na prisão, na União Soviética, em 1947.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Stepan_Petrichenko

Entre as 15 reivindicações apenas duas poderiam ser associadas àquilo que os marxistas gostam de classificar como “pequena burguesia” (camponeses e artesãos) ao exigirem “plena liberdade de ação” para todos os camponeses e artesãos que não utilizem trabalho assalariado. Como os operários de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a igualdade de salários e o fim dos postos de controlo que limitavam a liberdade de circular e a capacidade dos operários trazerem alimentos para as cidades.

Teve lugar uma reunião com quinze ou dezesseis mil pessoas na praça principal a 1º de Março e ficou claro o apoio à resolução do Petropavlovsk, aprovada depois da delegação de “procura de informações” ter redigido o seu relatório. Só dois funcionários bolcheviques votaram contra a resolução. Nesta reunião ficou decidido enviar uma nova delegação a Petrogrado para explicar aos postos de controlo e à guarnição da cidade as reivindicações de Kronstadt e para exigir que delegados independentes fossem enviados pelos operários de Petrogrado a Kronstadt para se informarem diretamente do que ali estava a acontecer. Esta delegação de trinta membros foi travada pelo governo bolchevique.

No momento em que a reunião do Soviete de Kronstadt estava a terminar, foi também decidido apelar a uma “conferência de delegados” para o dia 2 de Março. Devia-se aí discutir a forma como se realizariam novas eleições para os sovietes.

A conferência será composta por dois delegados das tripulações de cada navio, das unidades do exército, dos trabalhadores do porto, das oficinas, dos sindicatos e dos estabelecimentos do Soviete (Conselho). Esta reunião de 303 delegados aprova a resolução de Petropavlovsk e elege “um Comité Revolucionário Temporário” de cinco pessoas (este será alargado para 15 membros dois dias mais tarde aquando de uma outra conferência de delegados).

Este comité será encarregue de organizar a defesa de Kronstadt, um movimento decidido em parte pelas ameaças dos funcionários bolcheviques (e das práticas conhecidas dos bolcheviques) e do rumor, que se revelará sem fundamento, de que os bolcheviques teriam enviado forças para atacar a região. Kronstadt, a vermelha, levanta-se contra o governo comunista/marxista e lança o slogan da revolução de 1919 “todo o poder aos Sovietes (Conselhos)”, ao qual foi acrescentado, dada a evolução das condições políticas, a frase “e não aos partidos”. Eles chamarão a esta revolta “a terceira revolução” e concluirão os programas das duas primeiras revoluções russas instituindo uma verdadeira república de trabalhadores baseada em eleições livres, uma exigência imperativa, para os Sovietes/conselhos.

O governo comunista responderá com um ultimato para o 2 de Março. Eles afirmarão que a revolta “tinha sido seguramente preparada pela contra-espionagem francesa”  e que a resolução de Petropavlovsk é uma resolução dos Socialistas-Revolucionários de direita, bem como de reacionários. Dirão também que a revolta é organizada pelos oficiais ex-czaristas dirigidos pelo ex-general Kozlovsky (que, ironicamente, tinha sido colocado na fortaleza, enquanto especialista militar, por Trostky). Foi esta oficialmente a resposta do partido bolchevique a toda esta revolta e a estas reivindicações.

Durante a revolta, Kronstadt começa a se reorganizar de baixo para cima. Os comités sindicais foram reeleitos e foi formado um Conselho dos Sindicatos. A conferência dos delegados reúne-se regularmente (especificamente a 2, 4 e 11 de Março) para discutir as alternativas que tinham a ver com os interesses de Kronstadt e a luta contra o governo bolchevique. As bases comunistas existentes em Kornstadt abandonaram o partido, expressando assim o seu apoio à revolta e ao seu objetivo de “todo o poder aos sovietes e não aos partidos”. Cerca de 300 comunistas foram presos e tratados de forma humanitária na prisão (em comparação, pelo menos 780 comunistas deixaram o partido em protesto contra as medidas tomadas contra Kronstadt e o seu papel na revolução). De maneira significativa, um terço dos delegados eleitos pela conferência rebelde de Kronstadt, a 2 de Março, eram comunistas.

A revolta de Kronstadt era não-violenta, mas desde o princípio a atitude das autoridades terá como ponto de partida o ultimato e não a negociação séria. Com efeito, os bolcheviques publicitaram a ameaça que eles disparariam sobre os rebeldes “como sobre perdizes” (Trotsky) e tomaram como reféns as famílias dos marinheiros em Petrogrado. Já no fim da revolta, Trotsky recusa a utilização de armas químicas contra os rebeldes, mas se eles não tivessem sido esmagados, o ataque de gás teria tido lugar. Não foi feita nenhuma tentativa real para responder à revolta duma forma pacífica. Ainda que antes do gelo poder ser quebrado tivessem que passar pelo menos três ou quatro semanas depois da reunião de delegados de 2 de Março, quando se realiza a “conferência” que vai marcar verdadeiramente o princípio da revolta, os bolcheviques começaram as operações militares às 6.45 pm do dia 7 de Março.

E havia meios que possibilitavam uma resolução pacífica do conflito. A 5 de Março, dois dias antes do começo do bombardeamento de Kronstadt, os anarquistas com Emma Goldman e Alexandre Berkman à frente, ofereceram-se como intermediários para facilitar as negociações entre os rebeldes e o governo bolchevique (a influência anarquista tinha sido forte em Kronstadt em 1917). Mas isso foi ignorado pelos bolcheviques. Anos depois o bolchevique Victor Serge (que foi testemunha ocular dos acontecimentos) reconhecia que “mesmo quando o combate já tinha começado, teria sido fácil evitar o pior: tinha sido suficiente aceitar a mediação oferecida pelos anarquistas (Emma Goldman e Alexandre Berkman) que tinham contatos com os insurretos. Por razões de prestígio e um excesso de autoritarismo, o Comité Central recusa esta oportunidade”.

Uma outra solução possível, a sugestão do soviete de Petrogrado de 6 de Março de que uma delegação de membros do partido e de membros sem partido, mas membros do soviete, visitem Kronstadt, não foi seguida pelo governo. Os rebeldes, sem surpresa, tiveram reservas quanto ao verdadeiro estatuto dos delegados sem partido (mas do conselho, isso por desconfiarem de manipulação sobre os membros eleitos democraticamente, já uma prática comum na época) e exigido que tivessem lugar eleições para delegados nas fábricas, com a presença de delegados de Kronstadt (em si mesma uma exigência muito razoável). Nada veio daí (sem surpresa, pelo facto de que uma tal delegação teria relatado a verdade de que a revolta de Kronstadt era uma revolta popular de gente trabalhadora, ao mesmo tempo que ficariam visíveis as mentiras bolcheviques e o ataque armado que estava previsto seria mais difícil). Uma delegação “enviada por Kronstadt para explicar a situação ao Soviete de Petrogrado, cairá nas prisões da Tcheka” (Victor Serge – Memórias dum revolucionário – pag. 127). A recusa em seguirem estes caminhos possíveis para uma resolução pacífica da crise explica-se pelo facto de que a decisão para atacar Kronstadt já estava tomada. Com base em documentos dos arquivos soviéticos, o historiador Israel Getzler declara que “a 5 de Março, senão mais cedo, os chefes soviéticos já tinham decidido esmagar Kronstadt. Deste modo, num telegrama s [un] membro do Conselho do trabalho e da defesa, nesse dia, Trostky insistiu no facto de que ‘somente a tomada de Kronstadt porá um termo à crise política em Petrogrado’. No mesmo dia, agindo enquanto presidente da RVSR [o Conselho Militar Revolucionário do exército e da marinha da República], mandou reforçar e mobilizar o sétimo exército ‘para suprimir o levantamento de Kronstadt’ no menor tempo possível.” (O papel dos Chefes comunistas na tragédia de Kronstadt de 1921 à luz dos documentos de arquivo recentemente editados”, la Russie révolutionnaire, pp 24-44, vol. 15, numero 1, junho 2002, P. 32]

Como assinala Alexandre Berkman, o governo comunista “não fará nenhuma concessão ao proletariado, ao mesmo tempo que se dispunham a comprometer com os capitalistas da Europa e da América” [Berkman, La tragédie russe, p. 62]. Ao mesmo tempo que se satisfaziam em serem dialogantes e comprometidos com os governos estrangeiros, trataram os operários e os camponeses de Kronstadt (aliás, como os do resto da Rússia) enquanto inimigos de classe (com efeito, desde logo, Lenin interrogava-se publicamente sobre se a revolta não seria uma espécie de pano de fundo para a existência de negociações!)

A revolta foi isolada e não recebeu nenhum apoio externo. Os operários de Petrogrado, em virtude da lei marcial, estavam bloqueados, pouco podiam fazer e nenhuma acção foi possível fazer para apoiar Kronstadt. O governo comunista começará a atacar Kronstadt a 7 de Março. O primeiro assalto foi uma derrota. “Depois do golfo começar a ter as suas primeiras vítimas”, Paul Avrich nota o facto de “alguns soldados vermelhos, incluindo um corpo de Cadetes de Peterhof (Peterhof Kursanty) passaram para os insurrectos. Outros recusaram avançar, apesar das ameaças da canhoneiras na retaguarda que tinham ordem de atirar sobre os hesitantes. O comissário do grupo norte assinala que as suas tropas quiseram enviar uma delegação a Kronstadt para saber quais as exigências dos insurrectos” [ Avrich, pp 153-4 ]. Depois de 10 dias de ataque constante a revolta de Kronstadt foi esmagada pelo exército vermelho.

A 17 de Março seguiu-se o assalto final. E ainda nessa altura os bolcheviques tiveram que forçar as suas tropas a combaterem. Quando, por fim, entraram na cidade de Kronstadt “as tropas atacantes vingaram-se com uma orgia de sangue pelos seus camaradas caídos”. [ Avrich, p. 211 ]. No dia seguinte, numa ironia da história, os bolcheviques celebram o 50º aniversário da Comuna de Paris.

As forças soviéticas tiveram mais de 10 000 mortos em Kronstadt. Não há nenhum número fiável quanto ao número de rebeldes mortos ou quantos foram executados pela Cheka mais tarde ou enviados para os campos de prisioneiros. Os números que existem são fragmentários. Logo a seguir ao esmagamento da revolta, 4836 marinheiros de Kronstadt foram presos e enviados para a Crimeia ou para o Cáucaso. Quando Lenin é informado deste facto a 19 de Abril expressa grandes receios e eles serão, por fim, enviados para campos de trabalho obrigatório nas regiões de Archangelsk, de Vologda e de Mourmansk. Oito mil marinheiros, soldados e civis conseguem escapar através do gelo para a Finlândia. As tripulações do Petropavlovsk e do Sébastopol combaterão até ao fim, bem como os cadetes da escola de mecânica, do destacamento de torpedos e da unidade de comunicações. Um comunicado estatístico publicado a 1 de Maio refere que 6528 rebeldes foram presos, 2168 foram executados (33%), 1955 foram condenados a trabalho obrigatório (dos quais 1486 por apenas cinco anos) e 1272 serão libertados. Uma análise estatística da revolta, feita em 1935/36 situou o número de presos na ordem dos 10026 e refere que “não foi possível estabelecer com exactidão o número de punidos”. As famílias dos rebeldes foram expulsas para a Sibéria, considerada “seguramente a única região apropriada” para eles.

Depois da revolta ter sido sufocada, o governo bolchevique reorganizou a fortaleza. Ainda que ele tenha atacado a revolta em nome do “poder aos sovietes”, o novo comando militar designado para Kronstadt “abolirá totalmente o Soviete de Kronstadt” e reorganiza a fortaleza “com a ajuda duma troika revolucionária” (quer dizer, um comité de três homens designados). [ Getzler, p. 244 ]. O jornal de Kronstadt ser renomeado “Krasnyi Kronshtadt” (d’Izvestiia) e anunciará, em editorial, que “os dispositivos fundamentais” da “ditadura do proletariado” foram reconstruídos em Kronstadt, sendo “as suas fases iniciais” simplesmente “restrições da liberdade politica, o terror, o centralismo e a disciplina militar e o encaminhamento de todos os meios e recursos para a criação dum aparelho ofensivo e defensivo do Estado. .” [ citado por Getzler, p. 245 ]. Os vencedores começaram rapidamente a eliminar todos os traços da revolta. A praça central tornou-se “praça revolucionária” e os couraçados rebeldes Petropavlovsk e Sébastopol foram rebaptizados Marat e Comuna de Paris, respectivamente.

Notas:
(1):Socialistas revolucionários de esquerda
(2):Secções políticas do partido comunista que existiam na maior parte das instituições do Estado.
(3):Destacamentos policiais criados oficialmente para lutar contra a agiotagem, mas que no fim de contas confiscavam tudo o que a população esfomeada, incluindo os operários, traziam dos campos para consumo pessoal.
(4):Cadetes

Ver: Diário de Alexander Berkman

Bibliografia (em francês)

  • Voline, La Révolution Inconnue, Livre premier : Naissance, croissance et triomphe de la Révolution russe (1825-1917), Editions Entremonde, Lausanne2009. (ISBN 978-2-940426-02-7)

Texto publicado em Portal Anarquista

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