Sobre Aleppo e os “esquerdistas” ocidentais

sheikh-maqsoudResultado dos bombardeios dos “rebeldes” do leste de Aleppo nas últimas semanas.

Por Dilar Dirik

A verdade é sempre a primeira vítima da guerra, dizem. Como é verdade, especialmente olhando para a propaganda vindo de todos os lados, após a queda de Aleppo, que é mais um episódio do calvário da guerra na Síria desde há anos.

Estou enojada com a simplicidade das posições, o dogmatismo das ideias e, em alguns casos, a completa falta de decência moral nas análises e pseudo-análises do que está acontecendo em Aleppo e na Síria, na verdade, no Oriente Médio em geral. É certo que toda guerra está cheia de propaganda, mentiras e verdades inventadas, mas o que algumas pessoas sem qualquer conexo com a região estão botando para fora das suas poltronas pseudo-revolucionárias é grotesco e desprezível. Alguns estão criando fantasias intervencionistas imperialistas, alguns estão abraçando abertamente o sanguinário regime de Assad e negando os seus crimes de guerra, alguns agem como se os rebeldes fossem um exército de anjos que merecem o apoio entusiástico e estúpido, alguns dizem nunca e abandonam toda esperança para os milhões de civis afetados por esta guerra. Eu não estou falando sobre o mainstream, mas dos esquerdistas daqui! Demasiadas afirmações imorais foram feitas, mas neste momento particular, é especialmente violento ver como tantos “iluminados”, “progressistas” pessoas veementes “negam” o banho de sangue causado por Assad e o exército sírio e retratam-no como um mal menor, como se fossem os que perderam famílias inteiras a mando deste ditador fascista. Da mesma forma, onde estavam todas as pessoas que se levantam por Aleppo agora, quando os rebeldes estavam usando armas proibidas internacionalmente contra civis no bairro majoritariamente curdo de Sheikh Maqsoud? Essas pessoas vivem em um mundo de fantasia ou não têm respeito pela humanidade.

E se alguém nos dissesse que É POSSÍVEL ter uma visão complexa, moralmente sustentável e realista sobre as coisas, por ser uma pessoa aberta, honesta, genuína, preocupada e ativa, cujo objetivo não é “estar certo”, mas a justiça e liberdade para esta cidade/país em guerra e por realmente respeitar as vozes provenientes da própria Síria? Não precisas ter uma posição absolutamente perfeita, porque isso simplesmente não é uma escolha realista nesta guerra, a menos que decidas nunca ficar com as mãos sujas, inclinar-se para trás e desfrutar do derramamento de sangue.

Isso significa que podes realmente ser anti-Assad sem ser um apologista doutras formas de fascismo, estado ou não-estado. Podes ser pró-revolução sem fingir que todos os rebeldes são inocentes defensores dos direitos humanos. Podes entender que o ambiente revolucionário inicial foi sequestrado mais tarde por jihadistas, poderes regionais e dinâmicas internacionais sem cair na narrativa de Assad de que uma verdadeira oposição nunca existiu. Podes reconhecer que o anti-imperialismo significa estar contra todos os imperialistas, não só com o seu mais odiado imperialista.

Podes apoiar Rojava sem odiar os revolucionários sírios e negar a sua existência. Podes apoiar os revolucionários sírios verdadeiramente democráticos, mesmo se eles não têm um projeto sistematizado como em Rojava ou sem a participação significativa das mulheres ou ideias de esquerda radical nas suas estruturas. Podes simpatizar com o ceticismo árabe de Rojava, ao mesmo tempo em que se lembra do legado histórico do racismo sistemático e do chauvinismo contra os curdos na Síria. Podes apoiar os refugiados sem ignorar as dimensões sócio-econômicas e as condições que permitem a alguns sair, mas não a outros. Podes avogar contra a guerra, a intervenção e o comércio de armas e ainda reconhecer que a auto-defesa e luta armada pela sobrevivência são realidades inegáveis – ver Kobane. Podes odiar até as entranhas ao ISIS sem ser um racista ou Islamofóbico. Podes combater a islamofobia sem silenciar as pessoas do Oriente Médio, especialmente os não-muçulmanos, que criticam ou até mesmo lutam contra o Islam. E assim por diante.

Mas a pior coisa que você pode ser é um comentador on-line desorientado, confuso, auto-justificativo, que não tem nada a perder ao fabricar porcaria para incitar ainda mais divisões e hostilidades! Para baixo com as suas análises políticas que estão privadas da ética e da decência humana! Pessoas como você são a razão deste mundo se transformar em um inferno na terra!

Liberdade para Rojava

Liberdade para uma Síria livre, democrática, multi-cultural!


dilar-dirik-140x140Dilar Dirik, faz parte do movimento das mulheres curdas, é escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luta das mulheres na articulação e construção da liberdade no Curdistão. Escreve regularmente sobre o movimento de libertação curdo em vários meios de comunicação internacional.

Fonte: curdistam.blogaliza.org

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